Violência e drama do vício chegam à classe média
Flávia Martins y Miguel e Luis Kawaguti
do Agora
Depois de ser por muito tempo classificado como uma droga de moradores de rua e de membros de classes sociais menos favorecidas, o crack chegou à classe média e hoje é usado por todo tipo de pessoa, segundo a polícia.
- Veja na edição impressa do Agora, nas bancas neste domingo, 18 de outubro, o mapa do crack, das plantações de coca ao usuário final
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A porta de entrada do crack na classe média foi a busca de um entorpecente que pudesse substituir as drogas injetáveis, por causa da má qualidade da cocaína e do risco de contágio pela Aids e por outras doenças, como a hepatite, de acordo com o delegado Reinaldo Corrêa, do Denarc (departamento de narcóticos).
Contudo, o que começa como um uso recreativo pode se transformar em dependência e acabar em tragédia.
Raquel Oliveira de Mello, 22 anos, nasceu de um relacionamento de um homem de família abastada e uma empregada doméstica. Perdeu o pai --morto de câncer-- logo depois de completar um ano de vida e foi abandonada pela mãe em seguida.
Foi então adotada pelo tio, um engenheiro bem sucedido, que a criou com o mesmo carinho que dedicava às suas duas filhas biológicas.
"A mãe nunca fez nada por ela. Não participou da vida dela", contou a tia.
Estudiosa e boa aluna, em 2005 Raquel ingressou na Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) no curso de fisioterapia. Foi nessa época que a família decidiu se mudar para um condomínio de luxo em Indaiatuba (98 km de São Paulo), e a universitária acabou optando por morar sozinha em um apartamento deixado de herança pelo pai na Bela Vista (região central da capital).
Foi nessa época que a polícia suspeita que tinha começado seu envolvimento com as drogas. Descontente, Raquel abandonou a faculdade naquele mesmo ano para ingressar em um curso de artes na Escola Panamericana. A nova tentativa durou só um semestre, e a jovem passou a viver sem nenhuma ocupação longe dos pais adotivos.
Segundo investigações do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), Raquel passou a usar crack e a namorar um rapaz que também usava a droga.
A jovem fez amizade com prostitutas da rua Augusta (centro de SP) e, no último dia 1º de outubro, foi com uma delas ao hotel Love Story, na Aclimação (zona sul de SP), às 15h, para usar o entorpecente, segundo a polícia. Cerca de duas horas depois, só a prostituta saiu do quarto.
Quando a diária venceu, uma camareira achou Raquel assassinada sobre a cama do quarto. Ela havia sido decapitada. O DHPP acredita que as duas brigaram por causa do crack e que Raquel foi assassinada pela outra mulher.
Quatro dias depois, a prostituta foi presa vendendo drogas na Bela Vista. Para ligá-la ao assassinato, a polícia usou imagens das câmeras de segurança do hotel. O DHPP foi à casa da suspeita e achou uma coleção de filmes de terror com cenas de mutilação de corpos.
O departamento descobriu também que um ex-namorado da suspeita foi morto a facadas e quase teve a cabeça arrancada em 2007. A polícia investiga agora se foi a própria prostituta que matou o ex-namorado.
A família de Raquel diz não ter notado qualquer indício de que a garota estivesse usando crack. A tia, que afirmou ser visitada frequentemente por Raquel, disse que não percebeu nenhum sinal de mudança no comportamento dela. "Somente após o crime tivemos essa informação. O que levaria uma pessoa do nível dela a ser encontrada assim? Só poderia ser isso [o uso do crack]."
Em um site de relacionamento da internet, fotos de Raquel com seu visual moderno mostram uma jovem de espírito contestador. Mais de 2.000 mensagens de despedida foram escritas por amigos.
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