Consumo de crack se alastra nas ruas
Luis Kawaguti
do Agora
O consumo de crack no Brasil está crescendo devido ao baixo preço da droga nas ruas e ao seu uso como alternativa à cocaína --cujo refino está cada vez mais difícil para os traficantes de drogas devido ao controle da Polícia Federal sobre produtos químicos usados em sua produção.
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Só no Estado de São Paulo, a quantidade de crack apreendida pela polícia subiu mais de 370% em seis anos. Em 2002, foram retirados das ruas 186 quilos da droga. Já em 2008, a quantidade foi de 875 quilos, segundo estatísticas divulgadas pela Secretaria da Segurança Pública.
"Antes o crack era refinado no território brasileiro a partir da pasta-base [de cocaína], mas já é feito nos países produtores de cocaína e importado diretamente na forma de crack", disse o delegado Guilherme Castro Almeida, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Superintendência da PF em São Paulo.
Segundo ele, a repressão aos insumos da cocaína estimula os traficantes brasileiros e estrangeiros a produzirem mais crack, cuja confecção é mais simples e precisa só de ácido e permanganato de potássio. Por isso, diz ele, houve elevação tanto na produção interna de crack como na entrada ilegal de pedras feitas em países que plantam coca.
Os efeitos do crescimento no consumo de crack podem ser vistos nas ruas de São Paulo. Grupos de dependentes se aglomeram perto dos pontos de venda da droga e a consomem no meio da rua, até mesmo à luz do dia.
Tanto o crack quanto a cocaína são feitos a partir da pasta-base de cocaína, que é produzida das folhas de coca cultivadas na Bolívia, no Peru e na Colômbia. A pasta é uma mistura rudimentar das folhas com cal, barrilha, cimento, água de bateria de automóvel, entre outras substâncias.
Em São Paulo, traficantes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) encomendam essa pasta-base para refiná-la em laboratórios clandestinos e transformá-la em crack ou cocaína.
O refino da cocaína, porém, é um processo químico mais complexo que o da produção da pasta-base. Ele necessita de produtos químicos como permanganato de potássio, éter etílico, acetona e ácido clorídrico, que são usados na indústria petroquímica.
Hoje a PF fiscaliza a exportação de 146 dessas substâncias. Os insumos também são monitorados por policiais de países vizinhos. Só em 2007, segundo o relatório do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), foram apreendidas na América Latina mais de 150 toneladas de permanganato de potássio.
Nas regiões de fronteira, o combate ao tráfico é feito pela PF por meio de blitze. Em São Paulo, as ações são baseadas no trabalho de inteligência e no rastreamento dos insumos.
Violência
Segundo a polícia, a expansão do crack está diretamente relacionada ao aumento da criminalidade. Isso porque boa parte dos viciados pratica roubos e furtos para obter dinheiro e comprar a droga.
Essa relação chamou a atenção da CPI da Violência Urbana, da Câmara Federal. Os deputados já falam em "epidemia de crack" no país e programam uma visita a São Paulo em novembro para analisar a região da cracolândia (centro de SP).
"Como o crack é barato, proporcionou o ingresso no mercado [da cocaína] de uma outra parcela da população que não tinha acesso a uma droga mais cara. Era o público da cola de sapateiro", disse o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), relator da CPI.
O delegado Reinaldo Corrêa, do Denarc (departamento de narcóticos) da Polícia Civil paulista, aposta mais na questão econômica para explicar o aumento do consumo de crack. "Hoje o traficante obtém tanto lucro com o crack como com a cocaína", disse.
Segundo ele, apesar de o crack ter um valor de venda menor que o da cocaína, pode ser consumido em quantidade muito maior. Um usuário pode fumar pedras de crack por dias seguidos.
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